Artigo do jornalista Roberto Elias Salomão
(escrito em outubro/2010)
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Há exatos 35 anos, no dia 28 de outubro de 1975, uma segunda-feira, cheguei cedo à Escola de Comunicações e Artes-ECA, da USP, que cursava e cujo Centro Acadêmico presidia. Muitos outros, particularmente meus companheiros da diretoria do CA, fizeram o mesmo. Meu amigo Rodrigo Naves bradava: “Precisamos fazer alguma coisa!”.
Não foi preciso fazer quase nada. Ás 9 horas, os cerca de 800 alunos da ECA já haviam paralisado as aulas, e o movimento se espalhava pelas outras escolas do campus. O motivo: dois dias antes, o jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, havia sido assassinado nos porões da repressão política. Vlado era professor do Departamento de Rádio e TV da ECA.
Durante todo o dia a movimentação cresceu, culminando numa reunião no Sindicato dos Jornalistas, onde um apoiador da diretoria dizia para Francisco Solano, que era da oposição: “A morte do Vlado une todos os jornalistas” Solano respondia: “Não só os jornalistas. Une os professores, porque ele era professor, e une os artistas, porque ele era artista”.
Alguns dias depois realizou-se o ato ecumênico em memória de Vlado, um grandioso ato político na Catedral da Sé. Estávamos começando a construir o país da liberdade e dos direitos humanos.
Vlado fora preso no mesmo momento em que inúmeros militantes do PCB eram arrastados à prisão. Constatando o enfraquecimento do regime militar, os generais queriam quebrar a espinha dorsal do PCB para impedir que o partido se tornasse uma referência de organização para os militantes que despertavam então para a ação política. Não percebiam os militares que outras referências estavam se formando e não poderiam prever que, três anos depois, as greves do ABC dariam origem ao Partido dos Trabalhadores.
No primeiro semestre daquele ano de 1975, a ECA havia entrado em greve. Os alunos exigiam nada mais, nada menos do que o afastamento do diretor, o Nunes, um português fascista. No decorrer da greve, que se prolongou por mais de 70 dias, a diretoria do CA, integrada por militantes e simpatizantes do PCB, foi expulsa pelo movimento, por deliberadamente tentar solapar a greve.
Agora, o ex-presidente do CA era um dos presos pela ditadura. Quando ele foi solto, fui visitá-lo em sua casa, num sábado. Sem ter uma idéia clara dos riscos que corria, senti que devia prestar-lhe solidariedade, apesar de nossas posições inconciliáveis. Contou-me ele que, depois de levar duas bordoadas, havia falado o que os torturadores queriam.
Dias depois, chega à escola Sérgio Gomes, dirigente estudantil do PCB que também havia sido presidente do CA. Sérgio estava com o rosto inteiramente inchado. Correu a notícia de que apanhara muito, justamente por não revelar nenhuma informação que seus torturadores exigiam.
A morte de Vlado e, no início de 1976, do operário Manoel Fiel Filho, ambos nas dependências do 2º Exército, de São Paulo, abriram uma crise política no regime. O presidente general Geisel afastou o comandante do 2º Exército, general Ednardo D’Ávila Mello, que apoiava a chamada “linha dura”. O movimento de massas, particularmente, naquele momento, os estudantes, ganhou coragem e as ruas já no início de 1977.
A poucos dias da decisão final sobre quem governará o Brasil nos próximos quatro anos, as recordações de fatos significativos e, às vezes, muito duros de nossa história são, para mim, inevitáveis. Houve um tempo em que choravam Marias e Clarisses (este, o nome da companheira de Vlado) no solo do Brasil. Com muita luta, derrotamos esse período de trevas e estamos construindo passo a passo um novo país.
Vlado, esta luta foi por você. Neste domingo, muitos e muitos, em todo o Brasil, lembrarão teu sacrifício.



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