E revive tragédia que entrelaça o drama das duas famílias centrais
O menino Evandro. Supostamente assassinado em ritual de magia negra e supostamente sepultado em cemitério de Guaratuba. Criança desaparecida!
Duas famílias estão ligadas para o resto de suas vidas a uma tragédia: a do menino Evandro Ramos Caetano, desaparecido em 1992, supostamente assassinado em ritual de magia negra e supostamente sepultado em cemitério de Guaratuba no litoral do Paraná. Dúvidas pairam sobre esse registro e a Justiça descarta a possibilidade de fazer uso das tecnologias atuais para exumação do corpo, realização de teste de DNA, que poderiam, assim, confirmar se pertence ou não ao menino desaparecido a ossada depositada no local. Do outro, está o drama todo que se abateu sobre a família Abagge, do ex-prefeito de Guaratuba, Aldo Abagge, acusada como mandante do crime e inocentada em julgamento – que durou 34 dias e noites consecutivos -, depois de ter confessado sob uma tortura que apenas anos mais tarde foi devidamente periciada e atestada por laudo técnico, de ser mundialmente apontada como “bruxa”, sem elucidação consistente sobre os motivos que teriam levado ao crime, depois de uma série de equívocos na sua acusação, como a prisão de uma das filhas “por engano” – Sheila foi denunciada e Beatriz é quem responde até hoje pelas acusações -, de enterrar o patriarca – que morreu achando que mãe e filha estivessem em liberdade -, de ter veredicto de inocência revogado e de ter de reviver novamente toda a tragédia diante de um júri.
Essas duas famílias estão no centro de uma trama que pode muito bem, sim, ter um macabro sentido político e essa é a história contada, mas ainda não publicada, no livro da jornalista Vania Mara Welte “As Bruxas de Guaratuba – A tragédia das Abagge”. No novo julgamento que acontecerá amanhã em Curitiba, a defesa de Beatriz vai pela primeira vez apresentar o resultado de uma perícia feita, que confirma a tortura bárbara a que ela foi submetida para confessar o crime.
Beatriz Abagge (filha), depois de ter confessado o crime sob tortura e de ser absolvida há 13 anos, voltará a julgamento amanhã em Curitiba. A mãe, Celina, tem mais de 70 anos e não reviverá o drama da mesma forma. Duas famílias de Guaratuba, duas tragédias. Foto: Allan Costa Pinto, do Estadinho.
Além de não entender por que a Justiça nega pedido de exumação do cadáver enterrado como sendo os restos mortais do menino Evandro, a fim de eliminar essa dúvida, a defesa da filha do ex-prefeito de Guaratuba se encontra desfalcada em duas testemunhas, já que as originais morreram e a Justiça indeferiu também pedido para que elas fossem substituídas. A sensação da ré Beatriz – sua mãe tem mais de 70 anos e por isso não será submetida a novo julgamento – é de que, assim como na inquisição, a julgar pela intenção dos promotores do Ministério Público (MP), dedos indicadores em riste da acusação, ela não caminha para um julgamento, mas para uma derradeira tentativa de condenação. O que lhe dá mais forças para encarar essa nova batalha judicial é a própria inocência, diz Beatriz, estudante de Direito e funcionária do Tribunal de Justiça do Paraná.
Mas o desafio não será nada fácil. A defesa de Beatriz, composta por cinco advogados, teve acesso há pouco menos de dois meses às 70 mil páginas que compõem o processo na íntegra, com seus anexos todos, e às 20 mil páginas dos autos principais ante os 18 anos de vantagem dos promotores do MP. A defesa também tem contra si a nova dinâmica de júri, a partir das mudanças na legislação sobre seus procedimentos, que embora não se possa definir com exatidão quanto tempo durará esse novo julgamento, impõe uma limitação no tempo das falas e impede a apresentação de provas repetidas. A história será recontada, só que mais rapidamente. O advogado Eduardo Alves Stremel se diz confiante nas “provas robustas” da inocência de Beatriz e não teme o processo. “A confissão foi obtida sob tortura, que é um crime de lesa humanidade, um ataque frontal à dignidade da pessoa humana”, disse. O momento é outro: antes havia uma opinião pública estarrecida com os fatos noticiados como verdadeiros. Beatriz entrou presa no seu último julgamento, há cerca de 13 anos, e saiu absolvida. Agora, o júri tem diante de si uma pessoa livre, plenamente inserida na sociedade, que faz faculdade e que nesses mesmos 13 anos trabalha no TJ-PR. Mais do que isso, uma mulher madura, que defende de cabeça erguida a sua inocência. “Uma coisa é quando a pessoa comete um crime e paga pelo que fez. A Beatriz não cometeu crime, foi absolvida e continua pagando”, argumentou Stremel.
Livro escrito, revisado, fundamentado e ainda não publicado.
Se não houvesse uma trama política macabra sobre essas duas famílias, como descreve a jornalista Vania Welte, por que tantas negativas: para exumar o corpo, submeter o cadáver às técnicas avançadas e ao mesmo tempo simples dos exames de DNA, por que negar a tortura, por que não averiguar esse fato, que somente agora passou por perícia que atestou “caracterização efetiva de tortura”? Por essa narrativa é possível concluir que a história contada como sendo de um assassinato de criança em suposto ritual de magia negra no Litoral do Paraná atingiu uma dimensão tal, que não havia mais como os acusadores voltarem atrás. Beatriz diz que, somente durante uma sessão de tortura, na qual colocaram o acusado Osvaldo Marceneiro diante dela, é que os policiais se deram conta de que estariam torturando a irmã “errada”. Marceneiro teria chamado a moça pelo nome de “Beatriz” e os policiais estranharam: “não é a Sheila?”. Beatriz encontrou um jeito de se conformar com a lembrança dolorosa, dizendo que a irmã mais nova “não teria suportado a dor”. Milhões de pessoas em todo o país acompanham por uma novela de TV, ambientada na ditadura militar, o drama de presos políticos submetidos a torturas hediondas nos porões de um dos períodos mais obscuros e opressores da história do país. No caso das Abagges, as cenas contam uma tragédia pessoal, atual e que será revivida amanhã, durante o novo julgamento.
Treze anos depois, Beatriz Abagge enfrenta novo julgamento
E revive tragédia que entrelaça o drama das duas famílias centrais
O menino Evandro. Supostamente assassinado em ritual de magia negra e supostamente sepultado em cemitério de Guaratuba. Criança desaparecida!
Duas famílias estão ligadas para o resto de suas vidas a uma tragédia: a do menino Evandro Ramos Caetano, desaparecido em 1992, supostamente assassinado em ritual de magia negra e supostamente sepultado em cemitério de Guaratuba no litoral do Paraná. Dúvidas pairam sobre esse registro e a Justiça descarta a possibilidade de fazer uso das tecnologias atuais para exumação do corpo, realização de teste de DNA, que poderiam, assim, confirmar se pertence ou não ao menino desaparecido a ossada depositada no local. Do outro, está o drama todo que se abateu sobre a família Abagge, do ex-prefeito de Guaratuba, Aldo Abagge, acusada como mandante do crime e inocentada em julgamento – que durou 34 dias e noites consecutivos -, depois de ter confessado sob uma tortura que apenas anos mais tarde foi devidamente periciada e atestada por laudo técnico, de ser mundialmente apontada como “bruxa”, sem elucidação consistente sobre os motivos que teriam levado ao crime, depois de uma série de equívocos na sua acusação, como a prisão de uma das filhas “por engano” – Sheila foi denunciada e Beatriz é quem responde até hoje pelas acusações -, de enterrar o patriarca – que morreu achando que mãe e filha estivessem em liberdade -, de ter veredicto de inocência revogado e de ter de reviver novamente toda a tragédia diante de um júri.
Essas duas famílias estão no centro de uma trama que pode muito bem, sim, ter um macabro sentido político e essa é a história contada, mas ainda não publicada, no livro da jornalista Vania Mara Welte “As Bruxas de Guaratuba – A tragédia das Abagge”. No novo julgamento que acontecerá amanhã em Curitiba, a defesa de Beatriz vai pela primeira vez apresentar o resultado de uma perícia feita, que confirma a tortura bárbara a que ela foi submetida para confessar o crime.
Beatriz Abagge (filha), depois de ter confessado o crime sob tortura e de ser absolvida há 13 anos, voltará a julgamento amanhã em Curitiba. A mãe, Celina, tem mais de 70 anos e não reviverá o drama da mesma forma. Duas famílias de Guaratuba, duas tragédias. Foto: Allan Costa Pinto, do Estadinho.
Além de não entender por que a Justiça nega pedido de exumação do cadáver enterrado como sendo os restos mortais do menino Evandro, a fim de eliminar essa dúvida, a defesa da filha do ex-prefeito de Guaratuba se encontra desfalcada em duas testemunhas, já que as originais morreram e a Justiça indeferiu também pedido para que elas fossem substituídas. A sensação da ré Beatriz – sua mãe tem mais de 70 anos e por isso não será submetida a novo julgamento – é de que, assim como na inquisição, a julgar pela intenção dos promotores do Ministério Público (MP), dedos indicadores em riste da acusação, ela não caminha para um julgamento, mas para uma derradeira tentativa de condenação. O que lhe dá mais forças para encarar essa nova batalha judicial é a própria inocência, diz Beatriz, estudante de Direito e funcionária do Tribunal de Justiça do Paraná.
Mas o desafio não será nada fácil. A defesa de Beatriz, composta por cinco advogados, teve acesso há pouco menos de dois meses às 70 mil páginas que compõem o processo na íntegra, com seus anexos todos, e às 20 mil páginas dos autos principais ante os 18 anos de vantagem dos promotores do MP. A defesa também tem contra si a nova dinâmica de júri, a partir das mudanças na legislação sobre seus procedimentos, que embora não se possa definir com exatidão quanto tempo durará esse novo julgamento, impõe uma limitação no tempo das falas e impede a apresentação de provas repetidas. A história será recontada, só que mais rapidamente. O advogado Eduardo Alves Stremel se diz confiante nas “provas robustas” da inocência de Beatriz e não teme o processo. “A confissão foi obtida sob tortura, que é um crime de lesa humanidade, um ataque frontal à dignidade da pessoa humana”, disse. O momento é outro: antes havia uma opinião pública estarrecida com os fatos noticiados como verdadeiros. Beatriz entrou presa no seu último julgamento, há cerca de 13 anos, e saiu absolvida. Agora, o júri tem diante de si uma pessoa livre, plenamente inserida na sociedade, que faz faculdade e que nesses mesmos 13 anos trabalha no TJ-PR. Mais do que isso, uma mulher madura, que defende de cabeça erguida a sua inocência. “Uma coisa é quando a pessoa comete um crime e paga pelo que fez. A Beatriz não cometeu crime, foi absolvida e continua pagando”, argumentou Stremel.
Livro escrito, revisado, fundamentado e ainda não publicado.
Se não houvesse uma trama política macabra sobre essas duas famílias, como descreve a jornalista Vania Welte, por que tantas negativas: para exumar o corpo, submeter o cadáver às técnicas avançadas e ao mesmo tempo simples dos exames de DNA, por que negar a tortura, por que não averiguar esse fato, que somente agora passou por perícia que atestou “caracterização efetiva de tortura”? Por essa narrativa é possível concluir que a história contada como sendo de um assassinato de criança em suposto ritual de magia negra no Litoral do Paraná atingiu uma dimensão tal, que não havia mais como os acusadores voltarem atrás. Beatriz diz que, somente durante uma sessão de tortura, na qual colocaram o acusado Osvaldo Marceneiro diante dela, é que os policiais se deram conta de que estariam torturando a irmã “errada”. Marceneiro teria chamado a moça pelo nome de “Beatriz” e os policiais estranharam: “não é a Sheila?”. Beatriz encontrou um jeito de se conformar com a lembrança dolorosa, dizendo que a irmã mais nova “não teria suportado a dor”. Milhões de pessoas em todo o país acompanham por uma novela de TV, ambientada na ditadura militar, o drama de presos políticos submetidos a torturas hediondas nos porões de um dos períodos mais obscuros e opressores da história do país. No caso das Abagges, as cenas contam uma tragédia pessoal, atual e que será revivida amanhã, durante o novo julgamento.
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