Madre Teresa era solteira

Minha filha veio me fazer companhia no Clube dos Divorciados e paralelamente a esse engajamento, virou feminista ou o que eu, de forma superficial, caracterizava como sendo sua bandeira de emancipação. Quis entender os motivos de tanta determinação e de tanta novidade no seu estado civil, sem me meter muito nas decisões de uma mulher quase balzaquiana, até por uma preocupação de avô e movido pelo instinto paternalista no qual fui forjado há bem mais de meio século. Ouvindo suas queixas, muito similares às da mãe em outros tempos, senti-me um neandertal, que, embora pacífico, calmo e submisso, agia ainda como aquele ser das cavernas que arrastava a mulher pelos cabelos.

Religiosa, Madre Teresa só era casada com Jesus, que não suja louça, roupa, banheiro...

O tempo da escravidão já vai longe e a figura masculina do chefe de família é um fundamento de uma sociedade que foi embora sem nem dizer tchau. Não tem amor, abnegação, desprendimento, respeito ou mesmo opressão que façam hoje com que as mulheres se comportem como Amélias. Madre Teresa de Calcutá não passou por isso e, por mais caridosa que fosse a religiosa, era também solteira. Nem sequer a mais baixa auto-estima motiva as mulheres a continuarem aparentemente felizes e saltitantes na companhia de um marido que, no menor dos defeitos, não divide os afazeres domésticos e não se dispõe a mudar de forma a assumir essas responsabilidades. Simplesmente porque esses homens que “mamãe passou açúcar” não percebem que seu reinado de machão acabou e que o mundo da dinâmica do trabalho, da eficiência na correria do ganha-pão, não comporta mais esse tipo de soberba. Caiam na real: as mulheres se viram muito bem sozinhas. Elas só não querem viver assim e essa é a oportunidade que temos. Pensei também nos casos dos homens que, na falta de compreensão desse quadro e por ignorância concreta, partem para a violência na tentativa vã de manter um poder que existe apenas na cabeça desses agressores. Por sorte não era o caso da minha filha, mas é o de muitas outras, para as quais a Lei Maria da Penha está aí, mas sua aplicação no que depende do poder público em muitos estados e municípios e do próprio Judiciário ainda engatinha em fazer justiça.

A mulher que sai de manhã para trabalhar, está antenada com os acontecimentos em volta e com o bem estar da família inteira, chega em casa à noite esgotada física e mentalmente demais para se submeter à uma outra jornada exaustiva nos afazeres domésticos. Se esses trabalhos não forem assimilados por toda a família, o próprio acordo familiar estará fadado ao fracasso. É interessante lembrar que, embora não sejam remunerados, o Brasil já avançou no sentido de valorizar a contribuição desses trabalhos domésticos para fins de seguridade social. Pelo menos para as famílias de baixíssima renda e mediante uma contribuição previdenciária modesta, mas inclusiva.

Caiu a ficha. Ilustração de Rodrigo Pereira.

Quanto à minha filha, argumentei que esse seria um motivo muito pequeno para afastar duas pessoas que se gostam e que podem resolver o problema com outra saída, mas, até o limite de uma confidência entre pai e filha, ela demonstrou cansaço, falta de perspectiva mesmo e uma ponta de depressão no olhar. Olhar que sempre me cativou pelo brilho de espontaneidade, de fé e pela beleza. E macular isso, a essência de uma pessoa, é algo imperdoável. Não há um único culpado numa história assim, mas um acúmulo de coisas que explodem pelo motivo mais banal. Por isso, tive de concordar com sua saída estratégica, pela tangente, e foi a primeira vez que entendi o que sua mãe usou de infinitas palavras para tentar me explicar. Eu, na época, era orgulhosamente surdo e paguei um preço alto por essa incompreensão. Hoje, desprovido de encantos e mesmo de vontade para recomeçar, cheio das manias que o tempo me trouxe, só posso carregar o aprendizado e usufruir dele em outra encarnação. Mas para os jovens, o tempo de limpar o armário é agora. Ou encalhem-se para sempre!

Vou ficar por aqui, ao som de Joyce, Clara e Ana:

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